domingo, 6 de dezembro de 2015

1

Fiquei livre no silêncio,
disse-me o homem sem pernas.
O viaduto atrás de nós
arrasta um rumor humano.
O sol pela frente queima,
pouco acima do chão crespo.
Há na esteira do poente
poeira, cactos e pedras.
E a voz, outro som de fundo
na paisagem: “Fiquei livre.”

A ave desce o voo de fome
no crepúsculo sem cheiro.
Sabe de um galho de pouso
às margens tortas do nada,
ali onde ninguém chora
porque ali não há ninguém.
O homem sem pernas não olha
para o que me é visível;
vejo o voo que se retira
e a fome que recrudesce.

“Dentro de mim sou meu cárcere
com os gritos que calei”,
ele diz como quem mede,
queda como quem escuta,
arfa como quem espera.

A paisagem gira em torno
de nós dois, e eis a cidade.
Chão molhado, tédio leve.
“Na paleta do pintor
todas as cores são cinza”,
um sussurro em sobressalto.
A fuligem se derrete
com a água que imita chuva
e  se estagna nas sarjetas,
e a paisagem tremeluz.


2

Ainda não há ninguém,
é cartão-postal ainda.
Ou o rosto de Rimbaud
na poça d’água ao luar,
ou os ossos erodidos
da mulher de preto, lívida
na memória que amortalha,
ou o peso do grafite
no muro do cemitério
de cartão-postal, ainda;

ou o vômito em Baltimore
expondo a raiz de Poe,
ou o absinto na caverna
de uma Espanha sem os sinos
que dobrariam por nós,
ou apenas uma rua
que não existe, de pedras
alvinitentes, chamada
Cruz e Sousa, em Baltimore
ou numa foto borrada.

E outras ruas que antecedem
os vivos e os filhos mortos,
as veias vazias, sujas
de dor e ausência futuras
e lâmpadas apagadas.

Os edifícios esperam 
parados no térreo, hirtos,
enfileirados por cima
dos esgotos e condutos
sem o calor dos dejetos.
Nas pérgulas não há gente,
nem há folha nas piscinas
nem há grade nos batentes.
Não se fecham as cortinas
na face dos edifícios.


3

Rente à cerca de metal
corre um canteiro sem rega.
Plantas como que de plástico
não enfeitam nem alegram
o motivo das guaritas.
Sem rastro de pés na areia
lavada, o playground é pálido
ao reflexo do satélite,
quieto, sem leveza e gritos:
outro canteiro sem rega.

O tempo não se assinala
“de retorno” ou “de partida”.
Toda garagem é um vão,
e as portas estão intactas.
A solidão é improvável
sem a lucidez humana.
Não há mágoa de abandono,
não há festa de reencontro.
O tempo é aquela alameda
desconhecida, entre blocos,

assim como os corredores
que guardam passos vindouros,
os cômodos com seus sonhos
por sonhar, as cantoneiras
que se cobrirão de fotos.

Ainda não é ocupado
aquilo que está no espaço
e aos viventes se destina.
Não se cobra nem se exige
uma Babilônia tímida
ou Machu Picchu de esquina.
É S. Bernardo sem dínamo,
são paredes sem ruína.
Apenas tosco arcabouço
do que não se ocupa ainda.


4

É a cidade num pedaço
dela, e é ela quase toda.
Aqui existirão camas
com corpos vivos ou mortos,
lençóis manchados de sêmen
ou pus de escaras rompidas.
Ou só travesseiros cavos,
sem cabeça, sem mais nada.
É a cidade quase inteira
num pedaço dela mesma.

Mas é pouco, muito pouco
o que se antevê agora.
Pouco, muito pouco. Faltam
ruídos, gestos de busca,
mesas, braços e espaldares,
copos que se atiram longe
e bebês pela janela.
Falta um canto para o choro.
É a cidade no seu mínimo
a que se imagina agora.

Tudo o que se vê de fato
é um esqueleto sem carne.
Sem as vísceras que sangram,
sem os líquidos que escorrem,
sem os cheiros que se exalam.

Ergue-se ao luar, afunda-se
nas galerias pluviais,
e preexiste tão somente
na estrutura de cimento.
Mesmo assim traz arrepios
como se fosse o passado
de gerações que virão,
sem genealogia e fósseis.
Assim: ao luar, erguendo-se
a partir das galerias.


5

Quando se observa por dentro
a vaziez da cidade
não se encontram no reboco
a marca de uma moldura
ou mesmo o gancho do espelho
que se pensa em pendurar;
e não se veem os tapetes
de idos passos furtivos
e brinquedos espalhados.
Quando por dentro se observa,

não há o medo fechado,
não há lençóis estendidos
sobre camas, não há camas;
não há laivo de tristeza
onde haverá tanto dela
curvada sobre o fogão;
não há o morno da ducha
no conforto do banheiro,
nem o amor no corredor
igual ao medo, fechado.

Tudo é o remorso no aguardo.
Os gestos serão inúteis
e não haverá perdão.
Não haverá o retorno
de pernas cambaleadas.

Em seu íntimo a cidade
não existe pois não pulsa.
Não há ainda o que morre.
O que vive não ofega,
não tosse, não desespera.
Aqui é apenas o oco,
e o mundo é o cinza lá fora.
E não há sonho partindo
deste íntimo vacante,
que sem pulsar nada sonha.


6

Não há insetos rasteiros
a compartilhar migalhas,
não há pias entupidas
nem avisos sob a porta;
não há respingos de vela
nos umbrais inviolados
nem estuque esboroado
a descer pelas paredes.
Não há migalhas da vida,
e nada se compartilha.

A carência não se instala:
onde nada há nada falta.
A água represada é só
uma possibilidade
do sujo que vai lavar;
o silêncio não consente
aquilo que não calou,
é improvável a palavra.
O nada se supre à falta
de uma carência qualquer.

Sem vestígios, sem sombras,
barulhos não têm sentido,
e por isso não existem.
Sem perfumes que anunciem
e sem fumos que sufoquem.

Isto é o que é a cidade
só por agora, em seu íntimo
espremido entre tijolos,
vigas de ferro e concreto.
Não há manchas de descuido
no piso vitrificado
que reflete o brilho oblíquo
da noite branca lá fora,
naquilo que é a cidade
também como aqui agora.


7

E aqui é apenas um ponto,
quase apenas um sinal,
algo que encherá futuros
e entanto agora não conta.
Não há vislumbre de culpa
no pêssego das paredes,
no toque das maçanetas,
no cheiro de barro e cal.
Aqui é apenas o ponto
ainda vazio do encontro.

Não se vê sobre a mureta
o delineio de um voo,
qualquer voo insustentável.
Com o drapejar de vestes,
com a gastura de um grito.
Sem asas, sem veleidade
de uma imagem capturada.
Nada além do anteparo
ainda sem serventia
da mureta divisada.

Sim: mãos cerrarão cortinas
e recolherão as lágrimas.
Todos estarão a postos
após o aniquilamento.
(Hoje nada mesmo importa.)

O que há de humano, porém,
lá embaixo, na terracota
de cadáveres sem forma?
Aleias não são rapsódias
feridas pela tragédia.
A verdade ainda se guarda
no tempo, esse que advirá
com a carrada de móveis
e o tanto de sonhos, pondo
no vago o que há de humano.


8

É ainda um cartão-postal
estuporado de cinza.
Já se sabe, todavia,
das ossadas degradadas
de mulheres interditas
e dos rostos que se miram
– narcísicos indigentes –
no empoçado das sarjetas,
em pinceladas de lua,
neste cartão-postal, ainda.

Sabe-se agora da escola
na rua mais afastada.
O sol no pátio quadrado
baterá sempre de chapa
e as lombrigas chiarão
no ventre das salas frias.
No entanto será diuturna
a marcha por esta rua,
em cujo fim já avulta
a bruta mole da escola.

Gerações se empilharão
de memória em memória.
Mas muito há de se perder
em benefício da história
às esconsas rascunhada.

Ah, vates enfebrecidos
irromperão de seus séculos
assim como das tabernas.
A emoção conta melhor
do que os fatos decantados.
O velho mundo se alastra
em dores ejaculadas,
que serão recopiladas
por vates enfebrecidos
de outras tabernas e séculos.


9

Não, mas não ainda as chamas
de um ateneu deletério.
Porque se faz necessário
andar, atravessar praças
e sentir o brim da roupa
em seu aroma e em seu cáqui.
Porque há o impositivo,
a irredutibilidade.
Não, mas ainda não. Há que
se ter domínio das chamas.

Ainda é o apagado claro
de uma noite saturnina,
antecipação de mundo
e suas lacerações.
Os edifícios se jogam
como braços em vitória,
porém nada comemoram
no vão das janelas fuscas.
É uma noite saturnina
no apagado claro, ainda.

O aprendiz não se enfeitiça,
aquele que se respeita.
Aquele que se arquiteta
no movediço da lama
certo de não ir ao fundo.

Assim, não atiça o fogo,
tampouco se concretiza
antes que a espera se baste.
Põe-se no intuito e na mora.
Contém-se tal catapulta
para o assalto final.
Não é apenas um jogo,
pois o caminho se impõe
com seus avanços e fugas
até o momento do fogo.


10

Podem-se antever os dias
que rebrilharão nas pedras.
As manhãs limpas e frescas
com as crianças fardadas.
A garota loura à porta
e seu cachorrinho feio,
ela só na expectativa,
ele apenas na coleira.
Intuem-se já esses dias
que fulgem nas pedras lisas.

E tudo será igual
no giro em torno do sol
por um longo tempo, até
que alguma coisa se quebre
num lugar fora do sonho
onde viver seja breve.
Mas haverá outras voltas
a despeito do desânimo,
e tudo será igual
em torno do mesmo sol.

As intempéries constantes
são uma espécie de forja.
Nunca se sabe, contudo,
que peça disso resulta,
o que se ajusta e o que sobra.

O antes é ainda o agora
no cinza sujo da escola,
na sombra que toma conta
da despensa e das latrinas,
no branco lunar dos muros
sem o peso do grafite.
Neste lado da cidade
as construções são menores.
E se alarga, pois, o vulto
cinzento sujo da escola.


11

Eis a cidade e seus dutos
ainda sem uso, hiantes,
e suas poças minguadas
à gravidade da lua.
A noite não é noturna.
Não é como será quando
a insônia zumbir nas veias
e os bordéis luciluzirem.
(A cidade não se exaure:
dutos hiantes sem uso.)

Os bordéis farão a noite
se lavar e se escorrer,
e farão calar o sangue
por um instante de sono.
Sob o peso da cidade,
esgotos se aquecerão;
bem acima dela, a lua
já será de outro planeta.
É que na noite noturna
tudo se lava e se escorre.

Agora é somente a véspera
de uma urbe no claro-escuro,
um corpo à espera do plasma.
Nada circula nas ruas
para inundar as moradas.

Não se veem pelas esquinas
a iluminação, o toldo,
a porta convidativa.
Não se ouvem sapatos duros
a bater no macadame
do estacionamento vago,
nem a voz em tom alegre
de quem oferece ou pede.
Tudo o que há pelas esquinas
é silentemente cinza.


12

Não se sente a madrugada
leve que vem na garoa
perfumada de café.
Não se sente porta abrir-se
de um modo que não acorde.
Não se sente o fugitivo
calor dos quartos, dos sótãos
que se esvaziam. Ainda
não é a madrugada boa
a vir em leve garoa.

Nem mesmo é a noite da estafa
e dos bares já fechados,
das lâmpadas derradeiras
e de alguns assassinatos.
Nem a de antes, a do cine
depois da sorveteria,
da grana insuficiente
e do coito improvisado.
Não é a hora que se arrasta
diante de bares fechados.

Nem o tempo de mais antes,
ainda mais antes, quando
tomba o dia sobre os ombros
dos que voltam ou dos que morrem,
ou dos que não vão ou ficam.

Nem o meio-dia de uma
que seja parca existência,
ovo na marmita fria.
Não, nada. Apenas o gris
como de olhos cegos, turvos,
muito orgulhosos de si.
A cidade que não é
se aguarda no que será,
seja mesmo a parca vida
na metade do seu dia.


13

(A cidade se sustém
à beira do seu abismo,
um quase ser ou talvez.
Naturalmente não pode
livrar-se dos alicerces.
Vai virar logo ruínas,
sem injetar-se de vida?
A resposta não lhe ocorre,
que é da sua condição
suster-se à beira do abismo.

Ela é o medo de si mesma.
Às vezes, a depender
de como jogam as nuvens,
lembra cidades submersas
de filmes em preto e branco.
Mas ela, em suas entranhas,
não faz nenhum movimento,
como se numa redoma.
É o medo, com a aparência
que às vezes lhe dão as nuvens.

Um ermo, ermo arquitetônico
nesta estupidez cinérea,
centro de quê não se sabe.
Tem o ar de uma eternidade
fosca, meio enfarruscada,

pobre, sem apocalipse,
sem digna calamidade.
Não há escolha a não ser
mover-se em seus labirintos
para se melar de humano.
Somente a partir de então
existirá o imperfeito
para ser desmantelado.
Desse jeito, sem promessas
de nenhum apocalipse.)


14

Primeiro. Haverá a mata
a galgar o morro íngreme,
o tanque fundo esverdeado,
a olaria, os bois de carro
numa ponta da cidade.
O voo dos urubus
em torno do couro teso
em varas crucificado.
Quase o princípio de tudo:
a mata a galgar o morro

numa ponta da cidade,
e as ruas que dali se acham.
A igreja que se constrói
com vagar e pertinácia,
o chão cuspido da venda
mal se instala a feira livre,
a seringa da farmácia
cuja agulha, ai-ui, se quebra
numa bunda de menino.
Já quase é mesmo a cidade

em eludida pré-história:
ninguém morrerá por isso,
pois não há fontes seguras,
todas elas sucumbiram
em duelos ou chacinas.

É algo à margem da amargura
a desmerecer os bardos.
O lápis de uma criança
é a inteira empunhadura
do que se quer esgrimir,
sem pretender engenho e arte.
É o bater torto das asas
de acanhada envergadura,
em voo à margem da história
e em volta de uma cacimba.


15

Segundo. Haverá cinema
e pipoca com manteiga,
a cidade alvoroçada
na praça nua de plantas,
pavimentada com pedras.
Não é festa para adulto,
que prefere amendoim
na última sessão da noite.
Mas agora é matinê
com pipoca na manteiga.

Pavimentado com pedras,
o chão da praça se doura
à tardinha, ao pôr do sol,
quando todos vão embora
com seu picolé de coco.
Mataram o irmão de Dete,
num carnaval, ali perto,
na Rua do Maga-Sapo,
que é cimentada no meio
do calçamento de pedras

por causa do grande esgoto.
O moço morreu de bobo,
com uma bala no peito
e um penico na cabeça,
no qual bebera cerveja.

Ah, mas nada disso aqui
leva a rasgos de lirismo.
São coisas que não têm mácula
nos olhos de algum menino
arrevesados no tempo.
Fica apenas o registro,
deixa-se quieta a memória.
Todos se vão no sentido
em que se põe o sol. Sem
rasgos de qualquer lirismo.


16

Na rua em que sapos eram
esmagados pelos bêbados
na travessia do brejo
(que agora é o canal do esgoto)
vivia Maria Alice,
cabelo preto escorrido,
filha do dono do foto
aos fundos do casarão.
Já não havia ali putas
nem sapos para esmagar.

Elas foram empurradas
para longe, eles dragados.
Em lugar do ponto mínimo
de uma luzinha vermelha
a fluorescência alvinegra
da maior das funerárias.
E talvez se encontre ali,
quase ilegível na placa,
nome de austero monarca,
não o de sapo ou de puta.

A cidade era cortada
pela estrada do mundo, áspera,
a embicar para o planalto,
a descambar para o sul
até a Terra do Fogo.

Era o começo dos rumos,
com todas as questões postas.
Haveria encruzilhadas,
é claro, e sempre os dilemas,
e tantos. A fome e o medo
nos desvãos e nas lagoas.
Os pardieiros infestados
de pulgas e percevejos.
Mas o que importava mesmo
era o posto em seu começo.


17

Terceiro. Haverá o bosque
no meio de uma cidade.
Ali a escola, a piscina,
o aquário do peixe-elétrico,
a sopa no prato plástico.
Antes o susto odorífero
das maçãs agasalhadas
com luxo nos tabuleiros,
ao frio do clima novo.
A escola, a sopa no bosque:

nada se compara ao lago
lambendo a estrada de ferro.
Nem ao pão com mortadela,
nem à pinga com groselha,
nem ao cigarro ao ar livre.
Lugar sem casas à vista,
porém não longe demais
para um grito de socorro.
Nada se compara a ir
além da linha do trem.

O suor do futebol
que se mistura na testa
ao pó da terra vermelha:
maravilhosa surpresa,
amálgama da existência.

Mas há o piso de tábuas
antigas da sala de aula,
sobranceira à rua, fresca
por causa do bosque ao lado.
Não há como não gostar
da prova de matemática
à luz das altas janelas.
Será emoção à parte
meter-se pelas escadas
e pisar tábuas antigas.


18

Não são tacos de madeira
a formar belo parquete
como na casa dos ricos.
Esses tacos se preparam
com prego, alcatrão e areia
em gigantesco galpão
por hábeis mãos de meninos
que depois furtam laranjas
no grande pomar da igreja,
mãos laceradas nos tacos.

A alegria das laranjas
alivia do vapor
que infla os pulmões (vem do piche
que borbulha nos tambores),
das marteladas que escapam,
do pó de areia e serragem
e da imundície do chão.
A quantidade de peças
é que determina a paga.
Laranja não chega a casa.

O sumo da casca queima
a face. O azedo do fruto
imaturo alui os dentes,
arde intenso no palato.
Mas isso tudo é alegria,

é o caminhar para casa
ao jeito malandro, pândegos
com dinheiro na algibeira
e se rindo da carreira
do padre a se debater
na batina, afugentando-os
com um pastor-alemão.
Caminhar algo triunfal
para casa, para a mãe,
para o arroz quente que espera.


19

Mas eis que a estrada de ferro
estava lá, com seus trilhos
apontando a direção.
A cidade perde um pouco
da sua luz, da ferrugem
encantatória e fértil.
Existem muitos destinos
para os olhos sempre postos
no horizonte. E aqueles trilhos
apontavam para um bom.

Decisão tomada, a rua
parece que já se afasta
para se pôr no passado,
um gostinho de saudade
para camuflar o amargo.
Vergonha de vir à porta
e mostrar cara de culpa.
Não se parte impunemente.
Rompem-se todos os pactos
com a decisão tomada.

É tudo como num palco
quando a iluminação cai,
com as mesmas personagens
e sem que o cenário mude.
Nada mais. Agora é tarde.

Quem sabe se chegue à Austrália,
onde se cultiva enorme
uva-branca no Outback?
Ou só ao mar, simplesmente,
em que se cura bronquite?
No entanto, as questões são postas
e ninguém nunca se iluda:
não se passa muito além
de um viaduto. E a Austrália
quem sabe lá no futuro.


20

Quarto. Haverá a metrópole
de verdade, não a foto
retocada da revista.
Seria como cair
em outro planeta, ou mesmo
em corpo maior que a lua
do gibi em preto e branco.
O brilho dos espigões,
avenidas apinhadas:
metrópole de verdade.

Seria admirar calçadas
que se movem fofamente
em casacos de lã. Eis
batedores de carteira
espertos como nos filmes,
a vendedora de flores
– talvez cega, talvez não –,
o guarda de olhos mortiços
na esquina, com seu apito,
no mover-se das calçadas.

O enquadramento seria
meio rosa, em tecnicólor,
com profusão de mulheres
do alto dos sapatos, louras
de rubras bocas vorazes.

Homens de calças vincadas,
de sobretudo e chapéu,
mão num dos bolsos, cigarro
no canto da boca irônica,
que acenam com elegância
para táxis amarelos
com choferes de boné.
A cidade enormemente.
Eis. Mulheres em visom,
homens com calças vincadas.


21

Mas é mesmo grande várzea
ao pé dum monte. O riacho
passa nos fundos de casas,
faz curva, contorna um campo
de bola, à orla da mata.
Patos passeiam tranquilos
sob a roupa nos varais.
Bairro de construções baixas,
iguais em todo lugar,
espalhadas numa várzea.

Em cada lado de rua
desce muito lentamente
um esgoto a céu aberto,
com feijões maldigeridos,
camisinhas e lombrigas.
Toma-se banho com a água
de poços à flor da terra,
água que também se bebe.
Tudo desce com as fezes
em cada lado da rua.

É apenas um “dormitório”,
nada para preocupar.
As crianças catarrentas,
com outras no colo, esperam
a volta dos que, sim, foram.

Nas escuras madrugadas
sente-se o gelado úmido
na gola da japona antes
de chegar ao ponto de ônibus,
à fila um tanto invisível
na garoa aquém das lâmpadas.
As calças grossas, sem vinco,
emitem um rumor áspero,
quase o único que se ouve
nas madrugadas escuras.


22

No pequeno restaurante
do posto de gasolina
faz-se o primeiro café
logo se ergue meia porta.
As porções de pó e açúcar
são postas em água quente
e passadas no coador
da imensa máquina. Junto
dela se aquece um menino,
sozinho no restaurante.

O borracheiro vinha antes
de todos para tomar
seu cafezinho com pinga.
Bom para esquentar, dizia,
cara redonda, risonha
até o dia que um polícia
lhe deu uma cabeçada
na testa, em frente ao balcão.
De vergonha, o borracheiro
ficou uns tempos sem vir.

(O sangue a escorrer nariz
abaixo. Nunca tão pálido
o rosto largo e simpático,
o mais risonho, borrado
para sempre de vermelho.)

O rádio marcava a época
inverossímil, de guerra
e de salvação da pátria.
O sol a banhar as bombas
de combustível; o pano
de limpar balcão e mesas
à guisa de torniquete.
Fora, o calor insultava
o mundo em guerra do rádio
no frio da prateleira.


23

No domingo enevoado
os patos vieram de baixo
por causa do futebol.
Por aqui, por ali, entre
barracos sempre inconclusos,
a grasnar autoritários
– e muito covardes quando
pessoas se aproximavam –,
eles fugiam do jogo
do domingo enevoado.

A mãe não aguentou ver
a fome dos oito filhos.
Capturou um pato preto,
o mais forte, o mais veloz
e com certeza o mais gordo,
depenado atrás da porta
para pena não voar.
A carne dura cheirou
o dia inteiro a cozer,
todos aguentando a fome.

Quem disse que é brincadeira
o doer de certos crimes?
Mas não deixe, esse menino,
que sentimento de culpa
apouque o exemplo de luta.

É hora de repor questões,
reconsiderar os traumas
e então fazer o regresso,
porém por outras estradas.
Há de se encerrar o ciclo
como se fechasse um círculo.
Ninguém pisará seus rastros
com o peso das derrotas.
Algo fica para trás.
As questões foram repostas.


24

Quinto. Haverá outras messes
após outras semeaduras,
não será a terra a mesma.
Não ainda, ainda não,
mas virá um tempo incrível
em que os cafezais terão
feito a migração inversa
a das levas de famintos.
Assim, em todo lugar:
as semeaduras e as messes.

Não ainda. Afora o espaço
aberto a todos os ventos,
tudo parece tacanho,
as edificações baixas,
janelas perto do chão.
As largas vias de outrora
eram só ilusão de óptica
ou só devaneio da alma.
Tudo igual, mas encolhido,
exceto o espaço dos ventos.

“Lá até Deus é pequeno”,
alguém exclama num sopro
ao avistar a cidade
como que agachada ao longe
na concha de um vulcão morto.

O chegante não se orgulha.
Nunca um chegante se orgulha,
mesmo por trás dos ray-ban.
Reinstala-se quietamente
nas velhas roupas de cama
retiradas da bagagem.
Informa-se das mudanças,
das mortes, do que se ganha
no varejo e no atacado.
Não há orgulho na volta.


25

Pode-se pensar agora
que ainda seria cedo,
pois o destino era o Alasca,
não o meio do caminho.
No entanto, onde quer que esteja,
que a gente se sinta em casa
para todos resistirem.
As questões já foram dadas;
não vale mais nada agora
o que se pensa sobre isso.

Ah, olhar para o alto é quase
sentir-se numa redoma,
de tão perto que é o céu
com as nuvens esgarçadas.
O voo seria curto, pouco.
Resta então amar de novo
os torrões brancos dos morros,
com a ventura possível
em cidadelas sitiadas,
sob o céu de uma redoma.

Primeiro: a olaria, a mesma,
na parte baixa do pasto.
Decadente, fornos frios,
um tanto desconjuntada,
acolhe ninhos de pássaros.

Segundo: Maria Alice
mora na rua que tem
dois nomes, o oficial
e o do povo sem respeito.
Ela estuda na Normal,
nesse período noturno,
e sorri belo sorriso
cheio de dentes postiços.
E ninguém ama Elvis Presley
mais que ela, Maria Alice.


26

Mas é a cidade translúcida,
sol brando, ar leve, a redoma
sem memória dos destroços.
O açude não é a cloaca
que virá a ser em breve,
com as fezes dos esgotos.
As margens da rodovia
encharcaram-se com o óleo
das máquinas e dos homens,
manchando a translucidez.

Meninos de braços finos
empunham pesadas bombas
para engraxar suspensão
de caminhões carregados
de cebola-branca, a doce,
de que eles nunca provaram,
mas é melhor do que – dizem –
a miúda, a roxa, a ardida.
Enchem a bomba de graxa
e lá vão, com braços finos.

Essa estrada de rodagem
divide a cidade em duas,
como em quase toda parte:
lado rico e lado pobre.
E nisso ela é peremptória.

Em si mesma, é uma faixa
livre, sem necessidade
de salvo-conduto além
do dinheiro da cachaça.
As mulheres sentem falta
da Rua do Maga-Sapo,
mas lá não podem voltar,
hoje lugar de família
e de casa funerária.
Só nessa faixa são livres.


27

É ainda a cidade clara
dos biscoitos de polvilho
nas cozinhas e nas feiras,
do perfume de Aqua Velva
nas barbearias ruidosas,
do pipocar de um só tiro
para um morto à luz do dia;
de duas palavras negras
num reboco de parede,
a cidade clara, ainda.

Estranha a tristeza à porta
dos armazéns, no barzinho
de café e bate-papo
e na sala de jantar.
As coisas da vida vão
do jeito que sempre vieram.
O casario baixo abre
espaço para o sol leve
que se despenteia ao vento.
É mesmo estranha a tristeza.

As ruas estão como antes,
com o calçamento antigo,
as casas em desalinho.
Sem troca de coordenadas,
de gólgotas ou de rotas.

É a cidade edificada
sobre os ossos de outro povo.
Talvez daí derive essa
como que melancolia,
essa tristeza de agora.
Ou talvez seja algo como
o estremunhar da memória.
Mas não há um paralelo,
como não há na cidade
lasca de osso do outro povo.


28

A história apenas começa
quando se olha para os Andes,
ou ainda para além,
mais além, para as Galápagos,
ou pouco aquém, La Higuera.
É para lá que o sol vai,
a fechar e abrir o círculo
até a última catástrofe
ou o último amanhecer.
A história começa agora.

Num pátio frio de escola,
em outro pátio de escola,
numa das manhãs brumosas
em outro meio de estrada,
haverá a descoberta:
o mundo girou em torno
de um sol de guache, que morre
entre os pertences na estante.
Em outra manhã brumosa,
em frio pátio de escola.

O tempo se descortina
diante da escrivaninha.
Veem-se casas na colina,
na moldura da janela,
e sob um sol quase branco.

Tudo agora é permanente,
nisso não pode haver dúvida:
de que valerá a vida
na beleza antes da curva?
Fruir não basta, é preciso
criar, dar-se o descortino
de até onde vai o humano.
É necessário mover-se
rumo ao decisivo, pois
já não pode existir dúvida.


29

Sexto. Haverá muitos cacos
mundo afora, ou mundo adentro,
depende da perspectiva
ou do ponto de partida.
Não se contam os espinhos
que irrompem na natureza,
não são desastre dos seres.
Haverá muitas emendas
e sonetos pés-quebrados,
cacos pela vida adentro.

Antes, a solidão imensa
na vasta sala de espera
da gravidez e do pânico.
O grito estanca no intento
vão de romper-se no vácuo,
de estender-se ao infinito,
que é do tamanho de um quarto.
Será preciso cortar
correntes umbilicais
de uma solidão imensa.

Advirão os desconfortos
coletivos dos abrigos,
dos desabrigos, das sopas,
das cópulas que tresandam
no sujo sob as marquises.

Mas subsistirá a teima
de um caminho por cumprir.
É alguma coisa de têmpera,
mas também de cognição,
de fomes multiplicadas,
da alegria de ir em frente
e arrebentar com a cara.
É alguma coisa de doido,
de obstinado. Restará
sempre a teima do caminho.


30

Qualquer on-the-road é piada
sem o caminhão com lona,
o fogão e a filharada,
sem aquela água empoçada
entre acostamento e pasto,
sem toda a lama pesada
em que se afundam os pneus
e em que se desanima a alma.
De outro modo, o mundo vasto
desse on-the-road é só piada.

O destino que se busca
vai dar numa encruzilhada,
bem no meio do caminho,
onde tudo há de mudar:
a direção, a comida,
a vontade de voltar.
Quase tudo, na verdade;
permanece igual, intacto,
à espera, um lance de dados
para cada encruzilhada.

Montes rochosos, escuros,
com árvores incrustadas,
são como ondas que se crispam
além das bordas da estrada.
Até que se fecham, súbito,

em longo desfiladeiro.
O veículo faz curvas
num descer e subir rápido
tantas vezes ensaiado.
Com a lona recolhida,
o sol expulsa os miasmas
da noite no acostamento,
e o vento limpa as narinas
e os ouvidos, seca os olhos,
nas vertiginosas curvas.


31

Vai-se em direção do sol
e depois na dos faróis.
O que se move é puxado
desde sempre para o oeste,
antes por corcéis de fogo,
hoje mero motor Ford.
Haverá bifurcações
e contornos e retornos
porque a Terra mudou,
com seu sol e seus faróis.

A escuridão é dos grilos,
dos estalidos do carro
e dos raros pirilampos
no recanto de repouso.
Sem o zoar do motor,
os sons são os do silêncio,
exceção para os humanos.
Sem olhos postos no asfalto,
a escuridão é de todos,
gente, grilos, pirilampos.

De longe a cidade é mágica,
e será assim na mente,
no frio das ruas limpas
ou nas noites em que a fonte
jorra cores musicais.

Mas a primeira morada
tinha nas paredes manchas
de crianças sujas que antes
nela habitaram com ratos,
percevejos e baratas.
E o mercado central, o único,
era abafado e caótico
e cheio de trapaceiros
nocivos feito os insetos
dos esconsos da morada.


32

Não há mendigos nas ruas,
teriam dito. Esse bairro
feio com nome de guerra
não era então a cidade,
nem mesmo um pedaço dela.
Onde se escondem os pobres?
Com os pretos da macumba,
com os vizinhos do lado.
Sim, enganaram os trânsfugas:
há mendigos na cidade.

Menos na praça da fonte,
com a moçada arrumada
a girar em volta da água,
ainda que existam bares
suspeitos nas redondezas,
com putas e cachaceiros,
professores e estudantes.
O resultado: impossível
evitar infiltrações
mesmo na praça da fonte.

O bom eram os cinemas,
cada dia um diferente.
Na enormidade da sala
fica-se quieto, calado,
e ninguém cobra ou reclama.

Estoicamente suporta-se
o coice da sinusite,
coice que para na testa.
Mas nada que não se abrande
com Pulmocilin num músculo,
quando a dor é muito grande.
O mal é a literatura
que se esconde atrás dos muros,
que se insinua e se junta
ao coice da sinusite.


33

Mas o bom eram as noites
quando elas se esvaziavam.
Tendo as ruas na quietude,
a lua paralisava-se
logo acima dos telhados
e de Álvares de Azevedo.
(O Minister entre dedos,
o blusão preto de feltro.)
A cidade arfava apenas
nas fainas próprias da noite.

O arroz era pré-cozido,
beneficiado e ensacado
no fundo das madrugadas,
assim meio que na moita.
O mesmo cheiro do almoço.
Afora isso, cada noite
era sempre a descoberta
de um amor acrisolado,
perto da casa da Clea,
longe do malekizado.

A cidade adolescia
com o calor da fornalha,
com o luar cruz-sousiano.
A vida era uma merda, era
o albatroz de Baudelaire.

Recomeça a inquietação,
agora a ânsia do voo solo
rumo ao Ártico, às sinuosas
franjas verdes da Groenlândia.
Ao lado da rodoviária
há estandes sobre o córrego
que se asfixia sob lajes.
As lâmpadas de mercúrio
tornam a noite mais fria,
e é maior a inquietação.


34

Numa súbita descida,
chamada de esfria-saco,
o motorista gargalha.
“Esfriou o saco?”, indaga
quando o caminhão embica,
num ímpeto, morro acima.
Acordou de madrugada
e ainda está de jejum,
porém não perde a alegria,
ri a cada esfria-saco.

Atrás, a carga recende,
é cebola-branca, a doce.
A lona vai levantada
nos lados para arejar
o produto perecível.
Boleia de carro grande
é surpresa, tem de tudo.
Quando a marcha se reduz
na íngreme subida, sente-se
o cheiro da carga, atrás.

É muito chão de cascalho
para rodar, é o retão.
À noite, a luz dos faróis
dá a ilusão de que placas
são postos, comida e cama.

A água vista de passagem
de cima de cada ponte
é um pedaço das enchentes
por vir, ao fim da viagem,
com palafitas e livros
e a cósmica solidão
debaixo de um guarda-chuva.
E ali será só mais outro
entroncamento do mundo,
entrevisto de passagem.


35

(A cidade se congela.
Nem as nuvens, no seu pouco,
já se movem. Ela expecta,
ou algo assim, cinzamente.
As estrias de fuligem
desenhadas nas paredes
pela água da chuva falsa
estão agora mais nítidas,
como vasos capilares.
A cidade se congela

de expectativa, parece.
Tal qual um pulmão enfermo
antes de um sorvo de ar, ou
uma véspera de parto.
Pelos subterrâneos dela
rola uma espécie de anelo
pelos rejeitos de esgoto.
Um enorme coração
a uns instantes de bater,
imóvel na expectativa.

Algo no céu tem o aspecto
de um planeta, talvez Vênus.
Algo meio deslocado
em universo tão curto,
apesar da arquitetura.

Persistem o quieto e o surdo,
mas o gatilho já se arma.
O viver é inelutável,
como a luz e suas cores
no reflexo dos vitrais.
Nada disso tardará,
pois a cidade revolve
as entranhas desse modo:
expectante. Embora cinza,
congelada e muito quieta.)


36

Então a voz se interrompe.
A cidade tremeluz,
agora num cinza pálido
quase uniforme, a distância.
Há como que o recomeço
de velha dor que remorde
com o súbito silêncio.
Algo de fatal se impõe
para além deste momento.
A palavra se interrompe.

E a paisagem gira, e para.
O homem sem pernas não vê
o que sobra sobre a terra
na esteira do sol que tomba
dando contraste ao voo solo
da ave à procura de pouso,
como em desenho infantil.
Talvez já esteja ele cego,
ou não há o que valha a pena
neste lado da paisagem.

É como se fosse o nada
habitado por ninguém.
Não há razão para busca,
inquietação ou consolo.
Não há razão para luta.

Alheio e surdo ao rumor
que vem de trás, do viaduto,
o homem parece saber
que a invasão não tardará,
é coisa só de minutos.
Mas já deu o testemunho,
e se fecha em sua dor
e na solidão enorme,
alheio e surdo ao rumor
que rola sobre o viaduto.


(Julho de 2013)



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