1
Fiquei livre no
silêncio,
disse-me o homem
sem pernas.
O viaduto atrás
de nós
arrasta um rumor
humano.
O sol pela
frente queima,
pouco acima do
chão crespo.
Há na esteira do
poente
poeira, cactos e
pedras.
E a voz, outro
som de fundo
na paisagem:
“Fiquei livre.”
A ave desce o
voo de fome
no crepúsculo
sem cheiro.
Sabe de um galho
de pouso
às margens
tortas do nada,
ali onde ninguém
chora
porque ali não
há ninguém.
O homem sem
pernas não olha
para o que me é
visível;
vejo o voo que
se retira
e a fome que
recrudesce.
“Dentro de mim
sou meu cárcere
com os gritos
que calei”,
ele diz como
quem mede,
queda como quem
escuta,
arfa como quem
espera.
A paisagem gira
em torno
de nós dois, e
eis a cidade.
Chão molhado,
tédio leve.
“Na paleta do
pintor
todas as cores
são cinza”,
um sussurro em
sobressalto.
A fuligem se
derrete
com a água que
imita chuva
e se estagna nas sarjetas,
e a paisagem
tremeluz.
2
Ainda não há
ninguém,
é cartão-postal
ainda.
Ou o rosto de
Rimbaud
na poça d’água
ao luar,
ou os ossos
erodidos
da mulher de
preto, lívida
na memória que
amortalha,
ou o peso do
grafite
no muro do
cemitério
de
cartão-postal, ainda;
ou o vômito em
Baltimore
expondo a raiz
de Poe,
ou o absinto na
caverna
de uma Espanha
sem os sinos
que dobrariam
por nós,
ou apenas uma
rua
que não existe,
de pedras
alvinitentes,
chamada
Cruz e Sousa, em
Baltimore
ou numa foto
borrada.
E outras ruas
que antecedem
os vivos e os
filhos mortos,
as veias vazias,
sujas
de dor e
ausência futuras
e lâmpadas
apagadas.
Os edifícios
esperam
parados no
térreo, hirtos,
enfileirados por
cima
dos esgotos e
condutos
sem o calor dos
dejetos.
Nas pérgulas não
há gente,
nem há folha nas
piscinas
nem há grade nos
batentes.
Não se fecham as
cortinas
na face dos
edifícios.
3
Rente à cerca de
metal
corre um
canteiro sem rega.
Plantas como que
de plástico
não enfeitam nem
alegram
o motivo das
guaritas.
Sem rastro de
pés na areia
lavada, o
playground é pálido
ao reflexo do
satélite,
quieto, sem
leveza e gritos:
outro canteiro
sem rega.
O tempo não se
assinala
“de retorno” ou
“de partida”.
Toda garagem é
um vão,
e as portas
estão intactas.
A solidão é
improvável
sem a lucidez
humana.
Não há mágoa de
abandono,
não há festa de
reencontro.
O tempo é aquela
alameda
desconhecida,
entre blocos,
assim como os
corredores
que guardam
passos vindouros,
os cômodos com
seus sonhos
por sonhar, as
cantoneiras
que se cobrirão
de fotos.
Ainda não é
ocupado
aquilo que está
no espaço
e aos viventes
se destina.
Não se cobra nem
se exige
uma Babilônia
tímida
ou Machu Picchu
de esquina.
É S. Bernardo
sem dínamo,
são paredes sem
ruína.
Apenas tosco
arcabouço
do que não
se ocupa ainda.
4
É a cidade num
pedaço
dela, e é ela
quase toda.
Aqui existirão
camas
com corpos vivos
ou mortos,
lençóis
manchados de sêmen
ou pus de
escaras rompidas.
Ou só
travesseiros cavos,
sem cabeça, sem
mais nada.
É a cidade quase
inteira
num pedaço dela
mesma.
Mas é pouco,
muito pouco
o que se antevê
agora.
Pouco, muito
pouco. Faltam
ruídos, gestos
de busca,
mesas, braços e
espaldares,
copos que se
atiram longe
e bebês pela
janela.
Falta um canto
para o choro.
É a cidade no
seu mínimo
a que se imagina
agora.
Tudo o que se vê
de fato
é um esqueleto
sem carne.
Sem as vísceras
que sangram,
sem os líquidos
que escorrem,
sem os cheiros
que se exalam.
Ergue-se ao
luar, afunda-se
nas galerias
pluviais,
e preexiste tão
somente
na estrutura de
cimento.
Mesmo assim traz
arrepios
como se fosse o
passado
de gerações que
virão,
sem genealogia e
fósseis.
Assim: ao luar,
erguendo-se
a partir das
galerias.
5
Quando se observa
por dentro
a vaziez da
cidade
não se encontram
no reboco
a marca de uma
moldura
ou mesmo o
gancho do espelho
que se pensa em
pendurar;
e não se veem os
tapetes
de idos passos
furtivos
e brinquedos
espalhados.
Quando por
dentro se observa,
não há o medo
fechado,
não há lençóis
estendidos
sobre camas, não
há camas;
não há laivo de
tristeza
onde haverá
tanto dela
curvada sobre o
fogão;
não há o morno
da ducha
no conforto do
banheiro,
nem o amor no
corredor
igual ao medo,
fechado.
Tudo é o remorso
no aguardo.
Os gestos serão
inúteis
e não haverá
perdão.
Não haverá o
retorno
de pernas
cambaleadas.
Em seu íntimo a
cidade
não existe pois
não pulsa.
Não há ainda o
que morre.
O que vive não
ofega,
não tosse, não desespera.
Aqui é apenas o
oco,
e o mundo é o
cinza lá fora.
E não há sonho
partindo
deste íntimo
vacante,
que sem pulsar
nada sonha.
6
Não há insetos
rasteiros
a compartilhar
migalhas,
não há pias
entupidas
nem avisos sob a
porta;
não há respingos
de vela
nos umbrais
inviolados
nem estuque
esboroado
a descer pelas
paredes.
Não há migalhas
da vida,
e nada se
compartilha.
A carência não
se instala:
onde nada há
nada falta.
A água represada
é só
uma
possibilidade
do sujo que vai
lavar;
o silêncio não
consente
aquilo que não
calou,
é improvável a
palavra.
O nada se supre
à falta
de uma carência
qualquer.
Sem vestígios,
sem sombras,
barulhos não têm
sentido,
e por isso não
existem.
Sem perfumes que
anunciem
e sem fumos que
sufoquem.
Isto é o que é a
cidade
só por agora, em
seu íntimo
espremido entre
tijolos,
vigas de ferro e
concreto.
Não há manchas
de descuido
no piso
vitrificado
que reflete o
brilho oblíquo
da noite branca
lá fora,
naquilo que é a
cidade
também como aqui
agora.
7
E aqui é apenas
um ponto,
quase apenas um
sinal,
algo que encherá
futuros
e entanto agora
não conta.
Não há vislumbre
de culpa
no pêssego das
paredes,
no toque das
maçanetas,
no cheiro de
barro e cal.
Aqui é apenas o
ponto
ainda vazio do
encontro.
Não se vê sobre
a mureta
o delineio de um
voo,
qualquer voo insustentável.
Com o drapejar
de vestes,
com a gastura de
um grito.
Sem asas, sem
veleidade
de uma imagem
capturada.
Nada além do
anteparo
ainda sem
serventia
da mureta
divisada.
Sim: mãos
cerrarão cortinas
e recolherão as
lágrimas.
Todos estarão a
postos
após o
aniquilamento.
(Hoje nada mesmo
importa.)
O que há de
humano, porém,
lá embaixo, na
terracota
de cadáveres sem
forma?
Aleias não são
rapsódias
feridas pela
tragédia.
A verdade ainda
se guarda
no tempo, esse
que advirá
com a carrada de
móveis
e o tanto de
sonhos, pondo
no vago o que há
de humano.
8
É ainda um
cartão-postal
estuporado de
cinza.
Já se sabe,
todavia,
das ossadas
degradadas
de mulheres
interditas
e dos rostos que
se miram
– narcísicos
indigentes –
no empoçado das
sarjetas,
em pinceladas de
lua,
neste
cartão-postal, ainda.
Sabe-se agora da
escola
na rua mais
afastada.
O sol no pátio
quadrado
baterá sempre de
chapa
e as lombrigas
chiarão
no ventre das
salas frias.
No entanto será
diuturna
a marcha por
esta rua,
em cujo fim já avulta
a bruta mole da
escola.
Gerações se
empilharão
de memória em
memória.
Mas muito há de
se perder
em benefício da
história
às esconsas
rascunhada.
Ah, vates
enfebrecidos
irromperão de
seus séculos
assim como das
tabernas.
A emoção conta
melhor
do que os fatos
decantados.
O velho mundo se
alastra
em dores
ejaculadas,
que serão
recopiladas
por vates
enfebrecidos
de outras
tabernas e séculos.
9
Não, mas não
ainda as chamas
de um ateneu
deletério.
Porque se faz
necessário
andar,
atravessar praças
e sentir o brim
da roupa
em seu aroma e
em seu cáqui.
Porque há o
impositivo,
a
irredutibilidade.
Não, mas ainda
não. Há que
se ter domínio
das chamas.
Ainda é o
apagado claro
de uma noite
saturnina,
antecipação de
mundo
e suas
lacerações.
Os edifícios se jogam
como braços em
vitória,
porém nada
comemoram
no vão das
janelas fuscas.
É uma noite
saturnina
no apagado
claro, ainda.
O aprendiz não
se enfeitiça,
aquele que se
respeita.
Aquele que se
arquiteta
no movediço da
lama
certo de não ir
ao fundo.
Assim, não atiça
o fogo,
tampouco se
concretiza
antes que a
espera se baste.
Põe-se no
intuito e na mora.
Contém-se tal
catapulta
para o assalto
final.
Não é apenas um
jogo,
pois o caminho
se impõe
com seus avanços
e fugas
até o momento do
fogo.
10
Podem-se antever
os dias
que rebrilharão
nas pedras.
As manhãs limpas
e frescas
com as crianças
fardadas.
A garota loura à
porta
e seu
cachorrinho feio,
ela só na
expectativa,
ele apenas na
coleira.
Intuem-se já
esses dias
que fulgem nas
pedras lisas.
E tudo será igual
no giro em torno
do sol
por um longo
tempo, até
que alguma coisa
se quebre
num lugar fora
do sonho
onde viver seja
breve.
Mas haverá
outras voltas
a despeito do
desânimo,
e tudo será
igual
em torno do
mesmo sol.
As intempéries
constantes
são uma espécie
de forja.
Nunca se sabe,
contudo,
que peça disso
resulta,
o que se ajusta
e o que sobra.
O antes é ainda
o agora
no cinza sujo da
escola,
na sombra que
toma conta
da despensa e
das latrinas,
no branco lunar
dos muros
sem o peso do
grafite.
Neste lado da
cidade
as construções
são menores.
E se alarga,
pois, o vulto
cinzento sujo da
escola.
11
Eis a cidade e
seus dutos
ainda sem uso,
hiantes,
e suas poças
minguadas
à gravidade da
lua.
A noite não é
noturna.
Não é como será
quando
a insônia zumbir
nas veias
e os bordéis
luciluzirem.
(A cidade não se
exaure:
dutos hiantes
sem uso.)
Os bordéis farão
a noite
se lavar e se
escorrer,
e farão calar o
sangue
por um instante
de sono.
Sob o peso da
cidade,
esgotos se
aquecerão;
bem acima dela,
a lua
já será de outro
planeta.
É que na noite
noturna
tudo se lava e
se escorre.
Agora é somente
a véspera
de uma urbe no
claro-escuro,
um corpo à
espera do plasma.
Nada circula nas
ruas
para inundar as
moradas.
Não se veem
pelas esquinas
a iluminação, o
toldo,
a porta
convidativa.
Não se ouvem
sapatos duros
a bater no
macadame
do
estacionamento vago,
nem a voz em tom
alegre
de quem oferece
ou pede.
Tudo o que há
pelas esquinas
é silentemente
cinza.
12
Não se sente a
madrugada
leve que vem na
garoa
perfumada de
café.
Não se sente
porta abrir-se
de um modo que
não acorde.
Não se sente o
fugitivo
calor dos
quartos, dos sótãos
que se esvaziam.
Ainda
não é a
madrugada boa
a vir em leve
garoa.
Nem mesmo é a
noite da estafa
e dos bares já
fechados,
das lâmpadas
derradeiras
e de alguns
assassinatos.
Nem a de antes,
a do cine
depois da
sorveteria,
da grana
insuficiente
e do coito
improvisado.
Não é a hora que
se arrasta
diante de bares
fechados.
Nem o tempo de
mais antes,
ainda mais
antes, quando
tomba o dia
sobre os ombros
dos que voltam
ou dos que morrem,
ou dos que não
vão ou ficam.
Nem o meio-dia
de uma
que seja parca
existência,
ovo na marmita
fria.
Não, nada.
Apenas o gris
como de olhos
cegos, turvos,
muito orgulhosos
de si.
A cidade que não
é
se aguarda no
que será,
seja mesmo a
parca vida
na metade do seu
dia.
13
(A cidade se
sustém
à beira do seu
abismo,
um quase ser ou talvez.
Naturalmente não
pode
livrar-se dos
alicerces.
Vai virar logo
ruínas,
sem injetar-se
de vida?
A resposta não
lhe ocorre,
que é da sua
condição
suster-se à
beira do abismo.
Ela é o medo de
si mesma.
Às vezes, a
depender
de como jogam as
nuvens,
lembra cidades
submersas
de filmes em
preto e branco.
Mas ela, em suas
entranhas,
não faz nenhum
movimento,
como se numa
redoma.
É o medo, com a
aparência
que às vezes lhe
dão as nuvens.
Um ermo, ermo
arquitetônico
nesta estupidez
cinérea,
centro de quê não se sabe.
Tem o ar de uma
eternidade
fosca, meio
enfarruscada,
pobre, sem
apocalipse,
sem digna
calamidade.
Não há escolha a
não ser
mover-se em seus
labirintos
para se melar de
humano.
Somente a partir
de então
existirá o
imperfeito
para ser
desmantelado.
Desse jeito, sem
promessas
de nenhum
apocalipse.)
14
Primeiro. Haverá a mata
a galgar o morro
íngreme,
o tanque fundo
esverdeado,
a olaria, os
bois de carro
numa ponta da
cidade.
O voo dos urubus
em torno do
couro teso
em varas
crucificado.
Quase o
princípio de tudo:
a mata a galgar
o morro
numa ponta da
cidade,
e as ruas que
dali se acham.
A igreja que se constrói
com vagar e
pertinácia,
o chão cuspido
da venda
mal se instala a
feira livre,
a seringa da
farmácia
cuja agulha,
ai-ui, se quebra
numa bunda de
menino.
Já quase é mesmo
a cidade
em eludida
pré-história:
ninguém morrerá
por isso,
pois não há
fontes seguras,
todas elas
sucumbiram
em duelos ou
chacinas.
É algo à margem
da amargura
a desmerecer os
bardos.
O lápis de uma
criança
é a inteira
empunhadura
do que se quer
esgrimir,
sem pretender
engenho e arte.
É o bater torto
das asas
de acanhada
envergadura,
em voo à margem
da história
e em volta de
uma cacimba.
15
Segundo. Haverá cinema
e pipoca com
manteiga,
a cidade
alvoroçada
na praça nua de
plantas,
pavimentada com
pedras.
Não é festa para
adulto,
que prefere
amendoim
na última sessão
da noite.
Mas agora é
matinê
com pipoca na
manteiga.
Pavimentado com
pedras,
o chão da praça
se doura
à tardinha, ao
pôr do sol,
quando todos vão
embora
com seu picolé
de coco.
Mataram o irmão
de Dete,
num carnaval,
ali perto,
na Rua do
Maga-Sapo,
que é cimentada
no meio
do calçamento de
pedras
por causa do
grande esgoto.
O moço morreu de
bobo,
com uma bala no
peito
e um penico na
cabeça,
no qual bebera
cerveja.
Ah, mas nada
disso aqui
leva a rasgos de
lirismo.
São coisas que
não têm mácula
nos olhos de
algum menino
arrevesados no
tempo.
Fica apenas o
registro,
deixa-se quieta
a memória.
Todos se vão no
sentido
em que se põe o
sol. Sem
rasgos de
qualquer lirismo.
16
Na rua em que
sapos eram
esmagados pelos
bêbados
na travessia do
brejo
(que agora é o
canal do esgoto)
vivia Maria
Alice,
cabelo preto
escorrido,
filha do dono do
foto
aos fundos do
casarão.
Já não havia ali
putas
nem sapos para
esmagar.
Elas foram
empurradas
para longe, eles
dragados.
Em lugar do
ponto mínimo
de uma luzinha
vermelha
a fluorescência
alvinegra
da maior das
funerárias.
E talvez se
encontre ali,
quase ilegível
na placa,
nome de austero
monarca,
não o de sapo ou
de puta.
A cidade era
cortada
pela estrada do
mundo, áspera,
a embicar para o
planalto,
a descambar para
o sul
até a Terra do
Fogo.
Era o começo dos
rumos,
com todas as
questões postas.
Haveria
encruzilhadas,
é claro, e
sempre os dilemas,
e tantos. A fome
e o medo
nos desvãos e
nas lagoas.
Os pardieiros
infestados
de pulgas e
percevejos.
Mas o que
importava mesmo
era o posto em
seu começo.
17
Terceiro. Haverá o
bosque
no meio de uma
cidade.
Ali a escola, a
piscina,
o aquário do
peixe-elétrico,
a sopa no prato
plástico.
Antes o susto
odorífero
das maçãs
agasalhadas
com luxo nos
tabuleiros,
ao frio do clima
novo.
A escola, a sopa
no bosque:
nada se compara
ao lago
lambendo a
estrada de ferro.
Nem ao pão com
mortadela,
nem à pinga com
groselha,
nem ao cigarro
ao ar livre.
Lugar sem casas
à vista,
porém não longe
demais
para um grito de
socorro.
Nada se compara
a ir
além da linha do
trem.
O suor do
futebol
que se mistura
na testa
ao pó da terra
vermelha:
maravilhosa
surpresa,
amálgama da
existência.
Mas há o piso de
tábuas
antigas da sala
de aula,
sobranceira à
rua, fresca
por causa do
bosque ao lado.
Não há como não
gostar
da prova de
matemática
à luz das altas
janelas.
Será emoção à
parte
meter-se pelas
escadas
e pisar tábuas
antigas.
18
Não são tacos de
madeira
a formar belo
parquete
como na casa dos
ricos.
Esses tacos se
preparam
com prego,
alcatrão e areia
em gigantesco
galpão
por hábeis mãos
de meninos
que depois
furtam laranjas
no grande pomar
da igreja,
mãos laceradas
nos tacos.
A alegria das
laranjas
alivia do vapor
que infla os
pulmões (vem do piche
que borbulha nos
tambores),
das marteladas
que escapam,
do pó de areia e
serragem
e da imundície
do chão.
A quantidade de
peças
é que determina
a paga.
Laranja não
chega a casa.
O sumo da casca
queima
a face. O azedo
do fruto
imaturo alui os
dentes,
arde intenso no
palato.
Mas isso tudo é
alegria,
é o caminhar
para casa
ao jeito
malandro, pândegos
com dinheiro na
algibeira
e se rindo da
carreira
do padre a se
debater
na batina,
afugentando-os
com um
pastor-alemão.
Caminhar algo
triunfal
para casa, para
a mãe,
para o arroz
quente que espera.
19
Mas eis que a
estrada de ferro
estava lá, com
seus trilhos
apontando a
direção.
A cidade perde
um pouco
da sua luz, da
ferrugem
encantatória e
fértil.
Existem muitos
destinos
para os olhos
sempre postos
no horizonte. E
aqueles trilhos
apontavam para
um bom.
Decisão tomada,
a rua
parece que já se
afasta
para se pôr no
passado,
um gostinho de
saudade
para camuflar o
amargo.
Vergonha de vir
à porta
e mostrar cara
de culpa.
Não se parte
impunemente.
Rompem-se todos
os pactos
com a decisão
tomada.
É tudo como num palco
quando a
iluminação cai,
com as mesmas
personagens
e sem que o
cenário mude.
Nada mais. Agora
é tarde.
Quem sabe se
chegue à Austrália,
onde se cultiva
enorme
uva-branca no
Outback?
Ou só ao mar,
simplesmente,
em que se cura
bronquite?
No entanto, as
questões são postas
e ninguém nunca
se iluda:
não se passa
muito além
de um viaduto. E
a Austrália
quem sabe lá no
futuro.
20
Quarto. Haverá a
metrópole
de verdade, não
a foto
retocada da
revista.
Seria como cair
em outro
planeta, ou mesmo
em corpo maior
que a lua
do gibi em preto
e branco.
O brilho dos
espigões,
avenidas
apinhadas:
metrópole de
verdade.
Seria admirar
calçadas
que se movem
fofamente
em casacos de
lã. Eis
batedores de
carteira
espertos como
nos filmes,
a vendedora de
flores
– talvez cega,
talvez não –,
o guarda de
olhos mortiços
na esquina, com
seu apito,
no mover-se das
calçadas.
O enquadramento
seria
meio rosa, em
tecnicólor,
com profusão de
mulheres
do alto dos
sapatos, louras
de rubras bocas
vorazes.
Homens de calças
vincadas,
de sobretudo e
chapéu,
mão num dos
bolsos, cigarro
no canto da boca
irônica,
que acenam com
elegância
para táxis
amarelos
com choferes de
boné.
A cidade
enormemente.
Eis. Mulheres em
visom,
homens com
calças vincadas.
21
Mas é mesmo
grande várzea
ao pé dum monte.
O riacho
passa nos fundos
de casas,
faz curva,
contorna um campo
de bola, à orla
da mata.
Patos passeiam
tranquilos
sob a roupa nos
varais.
Bairro de
construções baixas,
iguais em todo
lugar,
espalhadas numa
várzea.
Em cada lado de
rua
desce muito
lentamente
um esgoto a céu
aberto,
com feijões
maldigeridos,
camisinhas e
lombrigas.
Toma-se banho
com a água
de poços à flor
da terra,
água que também
se bebe.
Tudo desce com
as fezes
em cada lado da
rua.
É apenas um
“dormitório”,
nada para
preocupar.
As crianças
catarrentas,
com outras no
colo, esperam
a volta dos que,
sim, foram.
Nas escuras
madrugadas
sente-se o
gelado úmido
na gola da
japona antes
de chegar ao
ponto de ônibus,
à fila um tanto
invisível
na garoa aquém
das lâmpadas.
As calças
grossas, sem vinco,
emitem um rumor
áspero,
quase o único
que se ouve
nas madrugadas
escuras.
22
No pequeno
restaurante
do posto de
gasolina
faz-se o
primeiro café
logo se ergue
meia porta.
As porções de pó
e açúcar
são postas em
água quente
e passadas no
coador
da imensa
máquina. Junto
dela se aquece
um menino,
sozinho no
restaurante.
O borracheiro
vinha antes
de todos para
tomar
seu cafezinho
com pinga.
Bom para
esquentar, dizia,
cara redonda,
risonha
até o dia que um
polícia
lhe deu uma cabeçada
na testa, em
frente ao balcão.
De vergonha, o
borracheiro
ficou uns tempos
sem vir.
(O sangue a
escorrer nariz
abaixo. Nunca
tão pálido
o rosto largo e
simpático,
o mais risonho,
borrado
para sempre de
vermelho.)
O rádio marcava
a época
inverossímil, de
guerra
e de salvação da
pátria.
O sol a banhar
as bombas
de combustível;
o pano
de limpar balcão
e mesas
à guisa de
torniquete.
Fora, o calor
insultava
o mundo em
guerra do rádio
no frio da
prateleira.
23
No domingo
enevoado
os patos vieram
de baixo
por causa do
futebol.
Por aqui, por
ali, entre
barracos sempre
inconclusos,
a grasnar
autoritários
– e muito
covardes quando
pessoas se
aproximavam –,
eles fugiam do
jogo
do domingo
enevoado.
A mãe não
aguentou ver
a fome dos oito
filhos.
Capturou um pato
preto,
o mais forte, o
mais veloz
e com certeza o
mais gordo,
depenado atrás
da porta
para pena não
voar.
A carne dura
cheirou
o dia inteiro a
cozer,
todos aguentando
a fome.
Quem disse que é
brincadeira
o doer de certos
crimes?
Mas não deixe,
esse menino,
que sentimento
de culpa
apouque o
exemplo de luta.
É hora de repor
questões,
reconsiderar os
traumas
e então fazer o
regresso,
porém por outras
estradas.
Há de se
encerrar o ciclo
como se fechasse
um círculo.
Ninguém pisará
seus rastros
com o peso das
derrotas.
Algo fica para
trás.
As questões
foram repostas.
24
Quinto. Haverá outras
messes
após outras
semeaduras,
não será a terra
a mesma.
Não ainda, ainda
não,
mas virá um
tempo incrível
em que os
cafezais terão
feito a migração
inversa
a das levas de
famintos.
Assim, em todo
lugar:
as semeaduras e
as messes.
Não ainda. Afora
o espaço
aberto a todos
os ventos,
tudo parece
tacanho,
as edificações
baixas,
janelas perto do
chão.
As largas vias
de outrora
eram só ilusão de
óptica
ou só devaneio
da alma.
Tudo igual, mas
encolhido,
exceto o espaço
dos ventos.
“Lá até Deus é
pequeno”,
alguém exclama
num sopro
ao avistar a
cidade
como que
agachada ao longe
na concha de um
vulcão morto.
O chegante não
se orgulha.
Nunca um chegante
se orgulha,
mesmo por trás
dos ray-ban.
Reinstala-se
quietamente
nas velhas
roupas de cama
retiradas da
bagagem.
Informa-se das
mudanças,
das mortes, do
que se ganha
no varejo e no
atacado.
Não há orgulho
na volta.
25
Pode-se pensar
agora
que ainda seria
cedo,
pois o destino
era o Alasca,
não o meio do
caminho.
No entanto, onde
quer que esteja,
que a gente se
sinta em casa
para todos
resistirem.
As questões já
foram dadas;
não vale mais
nada agora
o que se pensa
sobre isso.
Ah, olhar para o
alto é quase
sentir-se numa
redoma,
de tão perto que
é o céu
com as nuvens
esgarçadas.
O voo seria
curto, pouco.
Resta então amar
de novo
os torrões
brancos dos morros,
com a ventura
possível
em cidadelas
sitiadas,
sob o céu de uma
redoma.
Primeiro: a olaria,
a mesma,
na parte baixa
do pasto.
Decadente,
fornos frios,
um tanto
desconjuntada,
acolhe ninhos de
pássaros.
Segundo: Maria
Alice
mora na rua que
tem
dois nomes, o
oficial
e o do povo sem
respeito.
Ela estuda na
Normal,
nesse período
noturno,
e sorri belo
sorriso
cheio de dentes
postiços.
E ninguém ama
Elvis Presley
mais que ela,
Maria Alice.
26
Mas é a cidade
translúcida,
sol brando, ar
leve, a redoma
sem memória dos
destroços.
O açude não é a
cloaca
que virá a ser
em breve,
com as fezes dos esgotos.
As margens da
rodovia
encharcaram-se
com o óleo
das máquinas e
dos homens,
manchando a
translucidez.
Meninos de
braços finos
empunham pesadas
bombas
para engraxar
suspensão
de caminhões
carregados
de
cebola-branca, a doce,
de que eles
nunca provaram,
mas é melhor do
que – dizem –
a miúda, a roxa,
a ardida.
Enchem a bomba
de graxa
e lá vão, com
braços finos.
Essa estrada de
rodagem
divide a cidade
em duas,
como em quase
toda parte:
lado rico e lado
pobre.
E nisso ela é
peremptória.
Em si mesma, é
uma faixa
livre, sem
necessidade
de salvo-conduto
além
do dinheiro da
cachaça.
As mulheres
sentem falta
da Rua do
Maga-Sapo,
mas lá não podem
voltar,
hoje lugar de
família
e de casa
funerária.
Só nessa faixa
são livres.
27
É ainda a cidade
clara
dos biscoitos de
polvilho
nas cozinhas e
nas feiras,
do perfume de
Aqua Velva
nas barbearias
ruidosas,
do pipocar de um
só tiro
para um morto à
luz do dia;
de duas palavras
negras
num reboco de
parede,
a cidade clara,
ainda.
Estranha a
tristeza à porta
dos armazéns, no
barzinho
de café e
bate-papo
e na sala de
jantar.
As coisas da
vida vão
do jeito que
sempre vieram.
O casario baixo
abre
espaço para o
sol leve
que se
despenteia ao vento.
É mesmo estranha
a tristeza.
As ruas estão como
antes,
com o calçamento
antigo,
as casas em
desalinho.
Sem troca de
coordenadas,
de gólgotas ou
de rotas.
É a cidade
edificada
sobre os ossos
de outro povo.
Talvez daí
derive essa
como que
melancolia,
essa tristeza de
agora.
Ou talvez seja
algo como
o estremunhar da
memória.
Mas não há um
paralelo,
como não há na
cidade
lasca de osso do
outro povo.
28
A história apenas
começa
quando se olha
para os Andes,
ou ainda para
além,
mais além, para
as Galápagos,
ou pouco aquém,
La Higuera.
É para lá que o sol
vai,
a fechar e abrir
o círculo
até a última
catástrofe
ou o último
amanhecer.
A história
começa agora.
Num pátio frio
de escola,
em outro pátio
de escola,
numa das manhãs
brumosas
em outro meio de
estrada,
haverá a
descoberta:
o mundo girou em
torno
de um sol de
guache, que morre
entre os
pertences na estante.
Em outra manhã
brumosa,
em frio pátio de
escola.
O tempo se
descortina
diante da
escrivaninha.
Veem-se casas na
colina,
na moldura da
janela,
e sob um sol
quase branco.
Tudo agora é
permanente,
nisso não pode
haver dúvida:
de que valerá a
vida
na beleza antes
da curva?
Fruir não basta,
é preciso
criar, dar-se o
descortino
de até onde vai
o humano.
É necessário
mover-se
rumo ao
decisivo, pois
já não pode
existir dúvida.
29
Sexto. Haverá muitos
cacos
mundo afora, ou
mundo adentro,
depende da
perspectiva
ou do ponto de
partida.
Não se contam os
espinhos
que irrompem na
natureza,
não são desastre
dos seres.
Haverá muitas
emendas
e sonetos
pés-quebrados,
cacos pela vida
adentro.
Antes, a solidão
imensa
na vasta sala de
espera
da gravidez e do
pânico.
O grito estanca
no intento
vão de romper-se
no vácuo,
de estender-se
ao infinito,
que é do tamanho
de um quarto.
Será preciso
cortar
correntes
umbilicais
de uma solidão
imensa.
Advirão os desconfortos
coletivos dos
abrigos,
dos desabrigos,
das sopas,
das cópulas que
tresandam
no sujo sob as
marquises.
Mas subsistirá a
teima
de um caminho
por cumprir.
É alguma coisa
de têmpera,
mas também de
cognição,
de fomes
multiplicadas,
da alegria de ir
em frente
e arrebentar com
a cara.
É alguma coisa
de doido,
de obstinado.
Restará
sempre a teima
do caminho.
30
Qualquer
on-the-road é piada
sem o caminhão
com lona,
o fogão e a
filharada,
sem aquela água
empoçada
entre
acostamento e pasto,
sem toda a lama
pesada
em que se
afundam os pneus
e em que se
desanima a alma.
De outro modo, o
mundo vasto
desse
on-the-road é só piada.
O destino que se
busca
vai dar numa
encruzilhada,
bem no meio do
caminho,
onde tudo há de
mudar:
a direção, a
comida,
a vontade de
voltar.
Quase tudo, na
verdade;
permanece igual,
intacto,
à espera, um
lance de dados
para cada
encruzilhada.
Montes rochosos,
escuros,
com árvores
incrustadas,
são como ondas
que se crispam
além das bordas
da estrada.
Até que se
fecham, súbito,
em longo
desfiladeiro.
O veículo faz
curvas
num descer e
subir rápido
tantas vezes
ensaiado.
Com a lona
recolhida,
o sol expulsa os
miasmas
da noite no
acostamento,
e o vento limpa
as narinas
e os ouvidos,
seca os olhos,
nas vertiginosas
curvas.
31
Vai-se em direção
do sol
e depois na dos
faróis.
O que se move é
puxado
desde sempre
para o oeste,
antes por
corcéis de fogo,
hoje mero motor
Ford.
Haverá
bifurcações
e contornos e
retornos
porque a Terra
mudou,
com seu sol e
seus faróis.
A escuridão é
dos grilos,
dos estalidos do
carro
e dos raros
pirilampos
no recanto de
repouso.
Sem o zoar do
motor,
os sons são os
do silêncio,
exceção para os
humanos.
Sem olhos postos
no asfalto,
a escuridão é de
todos,
gente, grilos,
pirilampos.
De longe a
cidade é mágica,
e será assim na
mente,
no frio das ruas
limpas
ou nas noites em
que a fonte
jorra cores
musicais.
Mas a primeira
morada
tinha nas
paredes manchas
de crianças
sujas que antes
nela habitaram
com ratos,
percevejos e
baratas.
E o mercado
central, o único,
era abafado e
caótico
e cheio de
trapaceiros
nocivos feito os insetos
dos esconsos da
morada.
32
Não há mendigos
nas ruas,
teriam dito.
Esse bairro
feio com nome de
guerra
não era então a
cidade,
nem mesmo um
pedaço dela.
Onde se escondem
os pobres?
Com os pretos da
macumba,
com os vizinhos
do lado.
Sim, enganaram
os trânsfugas:
há mendigos na
cidade.
Menos na praça
da fonte,
com a moçada
arrumada
a girar em volta
da água,
ainda que
existam bares
suspeitos nas
redondezas,
com putas e
cachaceiros,
professores e
estudantes.
O resultado:
impossível
evitar
infiltrações
mesmo na praça
da fonte.
O bom eram os
cinemas,
cada dia um
diferente.
Na enormidade da
sala
fica-se quieto,
calado,
e ninguém cobra
ou reclama.
Estoicamente
suporta-se
o coice da
sinusite,
coice que para
na testa.
Mas nada que não
se abrande
com Pulmocilin
num músculo,
quando a dor é
muito grande.
O mal é a
literatura
que se esconde
atrás dos muros,
que se insinua e
se junta
ao coice da
sinusite.
33
Mas o bom eram as
noites
quando elas se
esvaziavam.
Tendo as ruas na
quietude,
a lua
paralisava-se
logo acima dos
telhados
e de Álvares de
Azevedo.
(O Minister entre
dedos,
o blusão preto
de feltro.)
A cidade arfava
apenas
nas fainas
próprias da noite.
O arroz era
pré-cozido,
beneficiado e
ensacado
no fundo das
madrugadas,
assim meio que
na moita.
O mesmo cheiro
do almoço.
Afora isso, cada
noite
era sempre a
descoberta
de um amor
acrisolado,
perto da casa da
Clea,
longe do
malekizado.
A cidade
adolescia
com o calor da
fornalha,
com o luar
cruz-sousiano.
A vida era uma
merda, era
o albatroz de
Baudelaire.
Recomeça a
inquietação,
agora a ânsia do
voo solo
rumo ao Ártico,
às sinuosas
franjas verdes
da Groenlândia.
Ao lado da
rodoviária
há estandes
sobre o córrego
que se asfixia
sob lajes.
As lâmpadas de
mercúrio
tornam a noite
mais fria,
e é maior a
inquietação.
34
Numa súbita
descida,
chamada de
esfria-saco,
o motorista
gargalha.
“Esfriou o
saco?”, indaga
quando o
caminhão embica,
num ímpeto,
morro acima.
Acordou de
madrugada
e ainda está de
jejum,
porém não perde
a alegria,
ri a cada
esfria-saco.
Atrás, a carga
recende,
é cebola-branca,
a doce.
A lona vai
levantada
nos lados para
arejar
o produto
perecível.
Boleia de carro
grande
é surpresa, tem
de tudo.
Quando a marcha
se reduz
na íngreme
subida, sente-se
o cheiro da
carga, atrás.
É muito chão de
cascalho
para rodar, é o
retão.
À noite, a luz
dos faróis
dá a ilusão de
que placas
são postos,
comida e cama.
A água vista de
passagem
de cima de cada
ponte
é um pedaço das
enchentes
por vir, ao fim
da viagem,
com palafitas e
livros
e a cósmica
solidão
debaixo de um
guarda-chuva.
E ali será só
mais outro
entroncamento do
mundo,
entrevisto de
passagem.
35
(A cidade se
congela.
Nem as nuvens,
no seu pouco,
já se movem. Ela
expecta,
ou algo assim,
cinzamente.
As estrias de
fuligem
desenhadas nas
paredes
pela água da
chuva falsa
estão agora mais
nítidas,
como vasos
capilares.
A cidade se
congela
de expectativa,
parece.
Tal qual um
pulmão enfermo
antes de um
sorvo de ar, ou
uma véspera de
parto.
Pelos
subterrâneos dela
rola uma espécie
de anelo
pelos rejeitos
de esgoto.
Um enorme
coração
a uns instantes
de bater,
imóvel na
expectativa.
Algo no céu tem
o aspecto
de um planeta,
talvez Vênus.
Algo meio
deslocado
em universo tão
curto,
apesar da
arquitetura.
Persistem o
quieto e o surdo,
mas o gatilho já
se arma.
O viver é
inelutável,
como a luz e
suas cores
no reflexo dos
vitrais.
Nada disso
tardará,
pois a cidade
revolve
as entranhas
desse modo:
expectante.
Embora cinza,
congelada e muito
quieta.)
36
Então a voz se
interrompe.
A cidade
tremeluz,
agora num cinza
pálido
quase uniforme,
a distância.
Há como que o
recomeço
de velha dor que
remorde
com o súbito
silêncio.
Algo de fatal se
impõe
para além deste
momento.
A palavra se interrompe.
E a paisagem
gira, e para.
O homem sem
pernas não vê
o que sobra
sobre a terra
na esteira do
sol que tomba
dando contraste
ao voo solo
da ave à procura
de pouso,
como em desenho
infantil.
Talvez já esteja
ele cego,
ou não há o que
valha a pena
neste lado da
paisagem.
É como se fosse
o nada
habitado por
ninguém.
Não há razão
para busca,
inquietação ou
consolo.
Não há razão
para luta.
Alheio e surdo
ao rumor
que vem de trás,
do viaduto,
o homem parece
saber
que a invasão
não tardará,
é coisa só de
minutos.
Mas já deu o
testemunho,
e se fecha em
sua dor
e na solidão
enorme,
alheio e surdo
ao rumor
que rola sobre o
viaduto.(Julho de 2013)

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